Entenda como os cientistas identificam animais ainda não descritos pela ciência!
Foi em uma viagem pelo rio Cururu-açu, no sul do Pará, em 1999. Os ornitólogos Elizabeth Höfling, Marcos Raposo e Renato Gaban-Lima viram um curioso papagaio: quase careca, sem penas na cabeça, ele tinha a pele da região de cor laranja. Os três logo pensaram que se tratava de uma nova espécie, pois as características dele não se encaixavam com as de nenhum papagaio que o trio conhecia! Mas, ao obter dados sobre a ave, descobriram que ela havia sido identificada como um jovem da espécie curica-urubu. "Foi um banho de água fria", lembra Marcos Raposo .
Acima, imagens das novas espécies de peixe, coruja e papagaio que foram recentemente descobertas e descritas no Brasil
Anos antes, em 1980, o zoólogo Galileu Coelho coletou, em uma reserva em Pernambuco, duas corujas iguais e as levou para a universidade federal do estado, onde atuava. Lá, elas ficaram sem serem estudadas. Até que, em 1997, o professor José Maria Cardoso da Silva chegou à instituição. Com experiência na Amazônia, ele viu as aves e perguntou: que bichos são esses? Ao ouvir a resposta -- Glaucidium hardyi , presente na floresta amazônica --, duvidou. "As corujas eram bem diferentes dessa espécie", conta. "Propus, então, que fossem estudadas com calma."
No mesmo ano, 1997, uma cientista do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) coletou, por acaso, um peixe em um igarapé perto de Manaus. Ele era tão pequeno (dois centímetros) que não dava para dizer se pertencia a uma nova espécie ou se era só a forma jovem e desconhecida de algum grupo de peixes. Para piorar, não podia ser estudado a fundo pelos cientistas, pois era o único exemplar! "Em casos como esse, é prudente manter o animal intacto, como prova de que foi de fato achado", explica Jansen Zuanon , biólogo do Inpa envolvido no estudo do peixe.
Essas histórias são diferentes, envolvem cientistas e bichos distintos, mas têm algo em comum: seu final. Todas terminaram com a conclusão de que os animais em questão -- o papagaio, a coruja e o peixe -- eram de uma espécie até então desconhecida pela ciência!
Mas os ornitólogos não tinham descoberto que o papagaio era definido como um curica-urubu jovem? Sim! Os cientistas do Inpa não estavam impedidos de estudar o peixe e, assim, confirmar se ele era de uma nova espécie? Pois é. Mas, até aqui, você só conheceu o início das histórias e nem sabe como se descobre uma nova espécie...
Uma espécie é considerada nova quando difere de todas as outras que já tiveram suas características descritas pelos cientistas. Essa diferença costuma ser sutil: no caso dos peixes, por exemplo, pode estar no número de escamas ou na forma dos dentes. Por isso, é preciso ser, em geral, um especialista para ter certeza de que uma espécie é nova!
Taxônomos e sistematas são os especialistas em descrever novas espécies e estudar suas relações de parentesco. Eles comparam espécies já descritas entre si e podem encontrar exemplares que não se encaixam nas características de nenhuma espécie já conhecida. "Isso leva a estudos que, em geral, acabam com a publicação de um texto, descrevendo a nova espécie, em uma revista científica", explica Jansen Zuanon.
Assim se faz uma descoberta
O anúncio de que uma nova espécie foi encontrada depende de longa investigação
Você teria paciência para contar todas as escamas de um peixe? Que questão, né?! Mas saiba que, diante de um bicho que pode ser de uma nova espécie, o cientista precisa estudá-lo a fundo: compará-lo com espécies próximas, para confirmar se o animal não pertence a elas, e obter informações para descrevê-lo!
O desenho mostra a caburé-de-pernambuco, espécie recém- descoberta de coruja. A plumagem marrom serve de disfarce entre as folhagens - tanto é que até hoje não foi possível tirar uma foto dela! (imagem: Conservation International)
Os dados necessários para descrever uma nova espécie variam de grupo para grupo de seres vivos. No caso de peixes, por exemplo, podem incluir até o número de escamas! "É comum também contar os raios das nadadeiras e estudar o esqueleto do peixe detalhadamente por meio de radiografias e do processo chamado diafanização", explica Jansen Zuanon.
Na hora de comparar o animal a espécies próximas, também são analisados vários aspectos! "No caso dos papagaios, é importante comparar, por exemplo, o tamanho e a coloração", conta Marcos Raposo. "Para aves, a vocalização também é analisada."
Foi ao comparar a coruja coletada em 1980 com duas outras espécies, por exemplo, que se provou que ela era, até então, desconhecida pela ciência! Pelo tamanho do corpo, asa e cauda, coloração da plumagem e vocalização, notou-se que ela não era da espécie Glaucidium hardyi, como havia sido cogitado a princípio, e nem de outra, Glaucidium minutissimum. Era, sim, uma espécie nova, que ganhou o nome de caburé-de-pernambuco (Glaucidium mooreorum).
Cique aqui para ouvir um trecho do som produzido pela nova espécie de coruja!
Mas onde um cientista pode achar um bicho que possa ser de uma nova espécie? "Em campo, ele pode capturar ou ver uma espécie que não conhece e decidir tentar identificá-la", conta Jansen Zuanon. "Muitas vezes, porém, essa nova espécie capturada pode passar despercebida, confundida com outra e ficar guardada em um museu por anos, até que um especialista, analisando-a, note que ela é uma nova espécie e a descreva."
O caso do papagaio de cabeça careca e laranja, que você vê na foto ao lado, ilustra essas situações. Ao vê-lo, os cientistas pensaram que ele era uma nova espécie. Mas descobriram que, em 1950, um ornitólogo alemão o classificou como um jovem papagaio da espécie curica-urubu. As aves dessa espécie são carecas com a cabeça preta, mas o cientista pensou que, quando jovens, elas deviam ter a cabeça careca e laranja, como a ave que encontrou.
A classificação, porém, estava errada. Marcos Raposo e os outros ornitólogos mostraram isso ao estudar o papagaio de cabeça careca e laranja. Os cientistas descobriram que ele não podia ser um curica-urubu jovem porque tinha características típicas de adulto. Além disso, como os ornitólogos constataram, o curica-urubu, quando jovem, tem a cabeça cheia de penas verde amareladas. Ou seja, é diferente do papagaio careca e de cabeça laranja. Sem falar que a distribuição geográfica das duas aves é diferente...
Diante disso, os ornitólogos escreveram um texto, descrevendo o papagaio de cabeça careca e laranja como uma nova espécie, e o publicaram em uma revista científica em 2002, pois assim se faz o anúncio oficial da descoberta! Na ocasião, o papagaio ganhou o nome científico de Pianopsita aurantocephala!
Uma descoberta emocionante
Descrever uma nova espécie dá trabalho, mas pode significar uma grande alegria
Quando Jansen Zuanon analisou pela primeira vez o peixe encontrado em 1997 perto de Manaus, ele ficou surpreso com as características do animal, apelidado de ’peixe misterioso’. Mais ainda porque ele não conseguiu dizer a qual grupo de peixes da Amazônia o bicho pertencia!
O ’peixe misterioso’ da Amazônia tem até 15 centímetros de comprimento
Mas a surpresa deu lugar à emoção no ano de 2001. O biólogo estava à procura de uma espécie pequena e, às vezes, difícil de ser encontrada, quando... um outro ’peixe misterioso’ surgiu! "Ao coletá-lo, fiquei eufórico, arrepiado", conta. Não era para menos: cerca de 20 exemplares foram coletados. Isso significava que, enfim, os cientistas poderiam estudar o ’peixe misterioso’ a fundo: afinal, eles não tinham mais um único indivíduo e, sim, vários!
Hoje, após terem sido feitos muitos estudos, pode-se dizer que o ’peixe misterioso’ não só pertence a uma nova espécie, como também será preciso criar uma nova família e um novo gênero para classificá-lo, pois ele não se encaixa nos que já existem! Por isso, Jansen Zuanon considera essa descoberta a mais intrigante da sua vida até agora.
"Para um cientista que trabalha no estudo de um grupo de animais ou plantas, descobrir uma nova espécie sempre é um prazer enorme e uma emoção especial", conta. "Mas quanto mais diferente for a espécie, ou quanto mais inesperada for sua descoberta, maior a emoção."
Porém, a descoberta não mexe apenas com os cientistas, mas com o público também. Ainda mais porque encontrar uma nova espécie, em alguns grupos de animais, não é algo trivial...
"Não é comum achar espécies novas de aves, por exemplo", explica José Maria Cardoso da Silva, que ajudou a descrever a caburé-de-pernambuco. Afinal, como explica Marcos Raposo, aves e mamíferos são bichos estudados há muito tempo, que os índios já conheciam, são animais maiores ou que cantam, enfim, que aparecem.
Quanto aos peixes... "Em alguns locais do mundo, como na Europa e na América do Norte, a fauna de peixes é bem conhecida e espécies novas são raras", conta Jansen Zuanon. "Porém, na América do Sul, em particular na Amazônia, a imensidão da região e a quantidade de rios e outros ambientes aquáticos nunca explorados cientificamente é grande. Por isso, há muitas espécies desconhecidas pela ciência."
Mas descrevê-las não é trabalho para qualquer um! Quem se dispõe a fazê-lo, para Marcos Raposo, precisa ser metódico e responsável. Atenção para detalhes, paciência para comparar exemplares e descrições e curiosidade também são qualidades primordiais, diz Jansen Zuanon. "Gostar de trabalho de campo e ter disposição para viajar até locais nem sempre seguros e confortáveis também aumenta a chance de achar espécies novas", conta. "Dizem ainda que uma dose de sorte não faz mal a ninguém..."
Descobrir e descrever espécies é importante, pois só assim conheceremos a diversidade de animais e plantas que há em áreas como a Amazônia. "Sem conhecê-la, fica difícil arranjar argumentos para preservá-la", diz Jansen Zuanon. Além disso, novas espécies podem ter características que ajudem os cientistas a entender melhor a evolução dos grupos de animais ou plantas. Por isso, esse trabalho precisa ser feito sempre!
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ciência e a magia dos insetos
O mundo fascinante dessas criaturas e as lembranças de um cientista são tema de um livro ambientado na cidade de São Paulo
Existe um mundo minúsculo que abriga várias formas de vida interessantes. Criaturas tão misteriosas que, na opinião de um escritor, podem ser comparadas a seres fantásticos como os duendes. Isso porque, como os pequenos homens de gorros verdes que vivem nas florestas dos contos de fadas, elas são dotadas de uma poderosa magia que muitas pessoas ainda não compreendem! Sabe de quem estamos falando? Dos besouros, das borboletas, das cigarras, dos gafanhotos, enfim, dos insetos! Bichos que, de tão curiosos, são capazes de encantar qualquer um que decida conhecê-los melhor!
No livro Os duendes de seis patas e a cidade mutante, de Rob de Góes, somos convidados a entrar no mundo dos insetos e a embarcar em uma história que começa na década de 1950, na cidade de São Paulo. Viajando no tempo, acompanhamos as transformações da cidade e descobrimos como o autor se tornou um defensor dessas criaturas de seis patas. Líder de um projeto ecológico, ele procura repovoar, com borboletas e outros animais, uma das últimas áreas verdes da sua cidade.
O besouro Megasoma elephas é uma das centenas de espécies de insetos apresentadas em Os duendes de seis patas e a cidade mutante
Para contar sua trajetória, Rob de Góes se inspirou nas mudanças pelas quais um inseto passa até se tornar um adulto. Por isso, dividiu seu livro em quatro capítulos recheados de ilustrações: fase embrionária, fase da lagarta, fase de crisálida e fase de adulto. Em cada um deles, o autor conta um pouco de sua vida. Fala de quando era menino e aprontava muitas molecagens. Lembra de quando era jovem e vivia colecionando insetos. Até chegar aos dias atuais, quando, já adulto, passa a defender os “duendes de seis patas”, como ele chama esses animais.
Como explica Rob de Góes, os insetos são seres especiais. Eles vivem à nossa volta e, muitas vezes, passam despercebidos. Porém, pesquisando um pouco mais sobre eles, podemos descobrir um mundo novo. O que você pode perceber lendo Os duendes de seis patas e a cidade mutante! Ao longo do livro, muitas aventuras vividas pelo autor são apresentadas. Então, partimos com ele em suas viagens, o acompanhamos na sua busca pelo conhecimento e descobrimos como ele aprendeu a desvendar os enigmas da curiosa vida dos “duendes de seis patas”!
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Aventura no Amapá
Saiba o que um grupo de cientistas encontrou ao explorar uma grande área de mata preservada no Norte do Brasil
Explorar lugares desconhecidos pode render encontros inesperados, além de uma aventura e tanto. Foi o que comprovou uma equipe de biólogos e botânicos, que trabalhou em uma grande área de mata preservada, no norte do Brasil: o Corredor de Biodiversidade do Amapá, lar de variadas plantas e diversos animais.
Durante dois anos, doze pesquisadores realizaram estudos na região, na busca por novas espécies da fauna ou flora. No total, foram feitas onze excursões mata adentro, que duraram aproximadamente vinte e um dias cada. Os cientistas montaram barracas, dormiram em redes e enfrentaram perigos. Dessa estadia na floresta, trouxeram muitas informações.
No total, mais de 1.700 espécies foram catalogadas na região, sendo que 23 ainda não foram descritas pela ciência: são peixes, sapos e plantas. Além disso, espécies que há muito tempo não eram vistas, como o lagarto Amapasaurus tetradactylus , encontrado pela última vez há 35 anos, foram achadas pelos pesquisadores, gerando imensa alegria. “Pouco se sabia até então sobre a flora e fauna do Estado do Amapá”, afirma o biólogo Enrico Bernard, da Conservação Internacional, coordenador do projeto.
Emoção na floresta
O Corredor do Amapá engloba doze áreas de preservação ambiental, sendo que quatro foram visitadas pelos cientistas, além de uma área do cerrado. Antes da realização das excursões, alguns desses lugares, possivelmente, ainda não haviam sido visitados por ninguém da cidade. “Em uma região localizada na fronteira do Brasil com o Suriname, por exemplo, não encontramos sinais de visitação ou de exploração, como árvores cortadas, restos de cinzas ou plásticos. Além disso, a reação dos animais era a de quem nunca tinha visto um ser humano antes. Eles não ficaram ariscos e nem fugiram”, conta Enrico.
Mas não foram somente essas as emoções pelas quais passaram os pesquisadores. Eles tiveram que enfrentar rios turbulentos a bordo de pequenos barcos, ficaram cara a cara com bichos muito grandes e até presos esperando o perigo passar. “Tivemos que atravessar, por exemplo, catorze cachoeiras para chegar a um local. Já uma pesquisadora teve que passar uma noite inteira dentro de um oco de árvore por causa de uma onça”, lembra Enrico.
O esforço, no entanto, valeu a pena. Afinal, um grande levantamento de espécies foi feito. Muitos animais e plantas que os pesquisadores nem imaginavam que existiam no Amapá foram encontrados, sendo que muitos deles são endêmicos, ou seja, só existem em determinada região do estado!
Agora, com o fim das excursões, o objetivo é fazer um plano de manejo no local. Isso quer dizer que os pesquisadores devem produzir um manual de preservação dos lugares visitados. Assim, todos podem ficar sabendo que certos pontos da floresta amapaense devem ser protegidos, pois ali existe muita riqueza natural.
Gostou de saber dessa aventura? Então, conte o que você descobriu para os seus colegas e confira mais detalhes no site da Conservação Internacional .
Cathia Abreu
Ciência Hoje das Crianças
11/10/2006
O saldo da pesquisa
Nas onze expedições feitas no Corredor do Amapá, muitas espécies foram encontradas:
- 438 espécies de aves, sendo uma nova e quatro endêmicas. Cem delas registradas pela primeira vez no estado do Amapá.
- 31 espécies de camarões e caranguejos.
- 62 espécies de mamíferos terrestres e 62 espécies de morcegos, sendo que 40 foram registradas pela primeira vez na região.
- 104 espécies de anfíbios (sendo sete novas) e 124 espécies de répteis (entre elas, uma nova espécie de cobra).
- Cerca de 50 anfíbios e répteis foram encontrados pela primeira vez no Amapá: 15 espécies de serpentes, cerca de 25 anuros – rãs, sapos e pererecas –, duas espécies de cobra-cega, uma salamandra, duas espécies de quelônios (tartarugas, cágados ou jabutis) e o restante de lagartos.
- 1.400 tipos de plantas foram catalogados e estão sendo analisados. Desse total, cerca de 600 já foram identificados.
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Cobra de duas cabeças?!?
Quem sabe o que é um anfisbênio? A resposta está na cartilha!
Duas espécies de anfisbênios comuns no Brasil: à esquerda, a Amphisbaena alba; à direita, a Amphisbaena vermicularis.
Ele tem o corpo alongado, formado por anéis e coberto por escamas. Quem viu jura que é uma cobra e, pior ainda, de duas cabeças. Nossa! Mas, na verdade, não é nada disso. O anfisbênio é um réptil, um parente das serpentes e dos lagartos, sem ser nem um nem outro, mas um bicho diferente. Muita gente nem sabe de sua existência. Então, para apresentá-lo, a Universidade Estadual de Feira de Santana lançou uma cartilha que conta tudo sobre o animal: Nem cobra, nem duas cabeças: quem eu sou?
Como os anfisbênios se locomovem com facilidade para frente e para trás, dão às vezes a impressão de ter duas cabeças.
Um dos motivos que faz com que o animal seja pouco conhecido é o seu hábito fossorial, ou seja, o fato de ele viver escondido debaixo da terra. Sua fama de cobra de duas cabeças nasceu porque seu corpo é muito parecido com o de uma serpente, e também porque ele é capaz de se locomover para frente e para trás com a mesma habilidade, daí a impressão que passa de possuir duas cabeças. Esta locomoção só é possível porque a pele do anfisbênio não está presa ao seu tronco, o que facilita o deslocamento do animal.
Ao contrário de algumas espécies de cobras, os anfisbênios não injetam peçonha. Por isso, não há razão para pânico se, por acaso, você topar com um por aí. No entanto, eles possuem um conjunto de dentes especializados para rasgar os alimentos e que, sentindo-se ameaçados, podem usar para se defender com uma mordida bem doída, mas que não mata ninguém.
No mundo, são cerca de 160 espécies de anfisbênios, distribuídas em diferentes famílias, com aproximadamente 60 espécies só no Brasil, encontradas em diversas regiões. "Esses animais são agentes ecológicos importantes, pois promovem a aeração do solo onde vivem em galerias construídas pelo próprio corpo", explica Maria Celeste Costa Valverde, professora do Departamento de Ciências Biológicas, da Universidade Estadual de Feira de Santana. Isso quer dizer que os anfisbênios vão fazendo buracos no solo, o que contribui para que ele se torne mais fértil, pois permite que o oxigênio se distribua melhor por ele.
A cartilha faz parte de um projeto que Maria Celeste desenvolve no estado da Bahia para apresentar o anfisbênio ao público. Ela é toda ilustrada com uma história em quadrinhos, fotos e desenhos que explicam detalhes do bicho. Além de promover o conhecimento sobre este animal curioso, a cartilha visa defendê-los. "A época das chuvas é uma sentença de morte para milhares de anfisbênios, pois as galerias onde vivem são inundadas, obrigando-os a sair para a superfície, sendo atacados indiscriminadamente pela população", lamentou a professora.
Se você quiser saber mais sobre os anfisbênios, não perca a cartilha elaborada por Maria Celeste. Ela está disponível para download no endereço a seguir: www.uefs.br/download/zoo/cartilha.pdf (atenção: o arquivo de formato PDF tem cerca de 15 MB e pode demorar a baixar).
Além disso, você também pode dar uma idéia ao seu professor e sugerir que ele solicite o material para trabalhar em sala de aula. Neste caso, é só entrar em contato com a professora Maria Celeste pelo e-mail cverde@uefs.br e ficar por dentro do mundo dos anfisbênios.
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A, B, C do mar
Águas-vivas e outros bichos estão em cartilha para prevenção de acidentes com animais marinhos
Sol e mar. Quem gosta de praia garante: não há combinação mais perfeita do que essa! Se você é fã de pegar onda, jacaré ou mesmo só de brincar na água, precisa saber se divertir com atenção. Por quê? Ora! Porque você pode estar dividindo espaço com animais interessantíssimos, mas que exigem cuidado.
Águas-vivas, caravelas, bagres, raias, moréias, ouriços-do-mar... Já reconheceu? Pois é, a rara beleza da maioria desses animais marinhos desperta a curiosidade de quem os observa. E aí cabe o aviso: eles são belos, mas podem ser perigosos, causando ferimentos e irritações na pele que precisam ser tratadas imediatamente. Para alertar as pessoas a respeito do convívio com esses animais, três pesquisadores ‐ um biólogo, uma oceanógrafa e um médico ‐ uniram seus conhecimentos e criaram a cartilha Animais marinhos: prevenção de acidentes e primeiros cuidados.
A publicação contém dicas para que seu dia no litoral seja perfeito! E o mais importante: ensina como devemos nos comportar diante dos anfitriões do lugar, a fauna marinha. Afinal, nós é que estamos invadindo a praia deles. Portanto, se ligue: alguns ambientes costeiros podem esconder armadilhas para quem anda desatento.
Diz a cartilha, que ao caminharmos em locais rochosos, por exemplo, devemos calçar algo firme e antiderrapante, como tênis ou sapatilhas. Isso porque as rochas são, geralmente, cobertas por cracas e ostras, organismos que possuem pontas que podem cortar os nossos pés. Se mesmo com todo o cuidado isso acontecer... A cartilha explica como cuidar dos eventuais ferimentos!
Álvaro Migotto, é biólogo e professor do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo e um dos idealizadores da cartilha, que também traz informações sobre cada um desses animais, suas características e hábitos. Em seu trabalho, ele presencia muitos acidentes, resultado da falta de conhecimento das pessoas sobre estes animais, por isso sua dica número um é: “Nunca devemos tocar em nada que não conhecemos e que não temos certeza de que é inofensivo”.
Antes de mexer naquele animal que parece “uma gracinha”, tome cuidado, é necessário conhecê-lo para esse contato não acabar mal. O importante não se deixar levar pelo medo, mas ser bem informado. Então, acesse o guia e fique por dentro! Ele está disponível na internet em um arquivo de formato PDF de 611 KB. Caso não tenha ainda, você vai precisar baixar o programa Adobe Reader para abrir esse arquivo (download gratuito).
A versão impressa da cartilha está esgotada, mas os pesquisadores responsáveis pretendem imprimir uma nova edição para as férias de julho e para o próximo verão. Por enquanto, você pode ajudar outras pessoas a conviverem melhor com os animais marinhos, avisando quem você conhece sobre a existência desse informativo na internet. Afinal, em vários lugares do Brasil, quase todo dia é dia de praia!
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A origem das cores dos pássaros
Contam que, nos tempos antigos, uma tartaruga havia matado um gavião, que deixou mulher e filho pequeno. Sempre que o filho ia caçar camaleões, achava penas de pássaros. Chegando em casa, perguntava a sua mãe: "De quem são as penas que eu acho sempre no mato quando vou caçar?" "São de teu pai, que morreu" -- respondia a mãe.
"Os índios têm um rico repertório de fábulas, muitas das quais incorporadas ao nosso folclore. São narrativas despretensiosas e divertidas, que acentuam a eterna luta entre a força e a astúcia."
Bertha G. Ribeiro, Museu Nacional, RJ
Confira você mesmo lendo a fábula abaixo, que explica por que os pássaros são coloridos!
Um dia, o filho do gavião foi caçar e encontrou umas tartaruguinhas, que o convidaram a banhar-se com elas. Depois do banho, ele quis agarrá-las com as presas. Então elas disseram: "Por isso minha avó matou teu pai". "Agora sei quem verdadeiramente matou meu pai" --, pensou o filho do gavião.
Ele cresceu e, quando já estava taludo, disse: "Vou experimentar minhas forças". Dizem que as experimentou no grelo do miriti. Meteu as unhas para arrancá-lo e não conseguiu. Passado algum tempo, tentou de novo e arrancou o grelo. "Agora já tenho forças. Vou vingar meu defunto pai... Esperarei a saída da avó das tartarugas."
Um dia, a avó das tartarugas espalhou paricá em cima de uma esteira. Nisso começou a ventar e a chover. E a tartaruga-avó disse às netas: "Vão recolher o paricá que o vento espalhou." As tartaruguinhas pediram que a avó as ajudasse a juntar o paricá. A avó saiu com as netas. O gavião estava vigiando, saltou-lhe em cima e carregou-a para um galho de paricá.
Então, a velha tartaruga disse ao gavião: "Como vou morrer, mande chamar teus parentes para assistir à minha morte." Chegaram todos os pássaros e ajudaram o gavião a matar a tartaruga. Os que a mataram, ficaram sarapintados. Outros ficaram vermelhos. Aqueles que beliscaram o casco ficaram com o bico preto. Os que beliscaram o fígado ficaram verdes.
Desde então, os pássaros ficaram pintados.
Glossário
Grelo - broto de planta
Miriti - palmeira que dá em locais úmidos
Paricá - espécie de rapé extraído da cortiça de uma árvore
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Olha o passarinho! E o tubarão, o pingüim, a cobra...
Veja fotos incríveis da vida selvagem que foram premiadas em um concurso aberto a crianças e adultos de todo o mundo!
Nhac, nhac, nhac. Não há como negar: os tubarões da foto ao lado são mesmo sortudos. Veja como suas bocas cheias de dentes estão lotadas de peixes! E quantos mais há ao seu redor. Pudera! Na hora em que essa imagem foi registrada, eles estavam, assim como o fotógrafo havaiano Doug Perrine, no lugar certo: a cerca de um quilômetro da costa leste da África, para onde migram, anualmente, grandes cardumes de sardinhas.
Mas espere! Você pode perguntar: desde quando ficar onde estão tubarões famintos é estar no lugar correto? Bem, desde que você seja um fotógrafo adulto profissional que, tomando todos os cuidados necessários, consiga tirar uma foto sensacional que renda um prêmio e tanto, como aconteceu com o fotógrafo havaiano! Com essa fotografia dos tubarões, ele recebeu o título de "Fotógrafo de Vida Selvagem do Ano", após participar do concurso internacional de mesmo nome!
Promovido pelo Museu de História Natural de Londres e também pela revista BBC Wildlife, esse concurso é aberto a fotógrafos amadores e profissionais, de todas as nacionalidades e idades, que tenham registrado momentos da vida selvagem: animais, plantas, paisagens. Nele, nem mesmo as crianças ficam de fora!
Enquanto os adultos competem em 12 categorias diferentes, os mais jovens são divididos em três: uma para quem tem menos de 10 anos, outra para os que estão na faixa dos 11 aos 14 anos e mais uma para adolescentes entre 15 e 17 anos. O vencedor de cada categoria júnior recebe um prêmio em dinheiro e ainda concorre com os demais campeões pelo título de "Jovem Fotógrafo de Vida Selvagem do Ano"!
O americano Nicholas Cancalosi Dean, por exemplo, concorreu com a foto ao lado na categoria dedicada aos menores de 10 anos. Ficou em segundo lugar! Ele fotografou esse monte de cascáveis em uma floresta na Pensilvânia acompanhado por seu pai. “Durante dias, nós as observamos e as fotografamos”, conta ele. Como as cascáveis são venenosas, o menino ficou atento: foi muito cuidadoso, permaneceu a uma distância segura, usou proteção nas pernas e ainda pegou emprestado as lentes de zoom do seu pai, que lhe permitiram fazer as fotos mesmo longe das cobras!
Para ganhar a categoria de 11 a 14 anos, no entanto, Fergus Gill, do Reino Unido, clicou simplesmente... o céu! Ele registrou o fenômeno conhecido como aurora boreal, um clarão com formas e cores variadas que pode ser observado no céu das regiões próximas ao pólo Norte. “Era novembro e estava muito frio, mas eu fiquei na companhia de meu pai por quase três horas e tentei tirar quatro ou cinco boas fotografias”, conta Fergus. “Esta foi a mais dramática.”
No próximo ano, acontece mais uma edição do concurso Fotógrafo de Vida Selvagem do Ano. Então, por que você não participa, mandando algumas fotos? Chame alguém que saiba inglês para lhe ajudar a se inscrever no site do concurso até o dia 4 de abril de 2005 e coloque o Brasil na disputa entre as crianças. Porque, entre os adultos, o nosso país já participa e... ganha destaque!
Duvida? Pois a foto de uma fêmea de lobo-guará ao lado, feita no Parque Nacional da Serra da Canastra pelo brasileiro Luiz Cláudio Marigo, ganhou o título de altamente elogiada, na categoria dedicada a imagens registradas entre o pôr e o nascer do sol. Ela serve como um incentivo para você perceber que há vida selvagem no nosso país e que ela pode render uma foto memorável ou... premiada!
Mara Figueira
Ciência Hoje On-line
06/12/04
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A foto acima, tirada na costa leste da África, foi a grande vencedora do concurso (Crédito: Doug Perrine / Concurso Fotógrafo de Vida Selvagem do Ano, organizado pelo Museu de História Natural e pela revista BBC Wildlife)
Esta foto de cascavéis obteve o segundo lugar na categoria até 10 anos. (Crédito: Nicholas Cancalosi Dean / Concurso Fotógrafo de Vida Selvagem do Ano, organizado pelo Museu de História Natural e pela revista BBC Wildlife.)
A aurora boreal retratada acima valeu ao fotógrafo o prêmio na categoria 11-14 anos. (Foto: Fergus Gill / Concurso Fotógrafo de Vida Selvagem do Ano, organizado pelo Museu de História Natural e pela revista BBC Wildlife.)
Esta foto de uma fêmea de lobo-guará, tirada por um brasileiro, recebeu a menção "altamente elogiada". (Foto: Luiz Claudio Marigo / Concurso Fotógrafo de Vida Selvagem do Ano, organizado pelo Museu de História Natural e pela BBC Wildlife.)
E o prêmio de foto mais engraçada vai para...

Não, não: essa categoria não existe no concurso. Mas, se fizesse parte dele, com certeza já teria vencedora: essa fotografia de uma família de pingüins, clicada pelo sueco Lars-Olof Johansson na Península Antártica. Dá só uma olhada! O fotógrafo chegou perto dessa fêmea, que estava regurgitando peixe e crustáceos para os seus filhotes, e, como todos o ignoraram, decidiu fotografar a intimidade da família. De repente, no entanto, um filhote se mexeu à beça, como estivesse sentido algo incômodo, até levantar o bumbum do chão. Para fazer logo o quê, veja só!
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De cabeça virada pela lua
Você sabia que o ciclo lunar pode influenciar o comportamento de alguns insetos?
O parasita causador da leishmaniose é transmitido pela picada dos insetos Lutzomyia.
(foto: WHO/TDR/Stammers)
Quem nunca ouviu falar do lobisomem, criatura que, nas noites de lua cheia, espalha o terror por onde passa? Pois saiba que o satélite da terra não tem influência apenas no mundo da fantasia. Estudos científicos na área de ecologia têm demonstrado que o ciclo lunar pode interferir no comportamento de alguns seres vivos. Uma pesquisa feita pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC) revelou que certos insetos também podem se tornar perigosos nas noites de lua cheia...
A pesquisa foi realizada no distrito de Posse, localizado no município de Petrópolis, no Estado do Rio de Janeiro. Lá, em 1996, foram registrados casos humanos de leishmaniose cutânea – uma doença que provoca feridas na pele provocadas pela ação de um micróbio chamado Leishmania. Estudos feitos naquela região mostraram que a doença deveria ser transmitida pelas espécies de insetos Lutzomyia intermedia e Lutzomyia whitmani – principais transmissores da doença. Foi no distrito de Posse que a equipe da bióloga Nataly Araújo de Souza, do Departamento de Entomologia do IOC, registrou essas duas espécies de insetos ocupando uma mesma área sem competição.
Durante dois anos, a equipe de pesquisadores fez coletas semanais das fêmeas desses insetos, pois são elas que sugam o sangue do homem e de outros mamíferos e, ao picarem a pele, transmitem o parasita causador da leishmaniose. As coletas – feitas das 18h às 22h – foram realizadas em dois ambientes diferentes: nas proximidades de um domicílio e no meio da mata. Os insetos foram capturados em armadilhas ou então quando tentavam sugar o sangue dos pesquisadores. Para ambas as espécies, o número de insetos capturados tentando atacar a equipe foi 30% a 40% maior nas noites de lua cheia, se comparadas às noites de lua nova.
Mas por que os insetos picam mais na lua cheia? Seria por que enxergam melhor suas "vítimas"? "Não se pode afirmar isso. Os resultados da pesquisa comprovam apenas que o ciclo lunar interfere no comportamento de L. intermedia e L. whitmani. Os dados demonstram que, na lua cheia, é necessário redobrar a precaução com esses transmissores da leishmaniose", diz Nataly que, no início deste ano, publicou um artigo sobre o estudo, na revista Memórias, do Instituto Oswaldo Cruz.
O principal objetivo desse estudo é criar maneiras de prevenção contra a leishmaniose. Até porque, ao contrário do lobisomem, essa doença não é lenda – pelo contrário, é um problema sério de saúde pública.